domingo, 14 de outubro de 2012

Fernando Paula - O meu Pai!


O meu Pai estava a fazer uma compilação dos poemas dele num ficheiro de Word que ficou guardado no meu computador até hoje. 
Acho que chegou a altura de, aproveitando a tecnologia que tenho à minha disposição e que, naquela altura ainda não havia (ele faleceu a 6 de Março de 1998), fazer um blog onde possa dar a conhecer, a quem passar por aqui, tudo quanto ele escreveu ou, pelo menos, tudo quanto eu consegui encontrar....
Mantive a ordem e formatação que ele fez e, no final, acrescentei também poemas soltos  que eu tinha e outros que fazem parte dum livro que ele fez para oferecer aos filhos e a alguns Amigos “Ego Sum”.
Penso que a intenção dele, ao iniciar esta compilação, seria a de fazer um segundo livro, infelizmente, como muitas outras coisas, não o chegou a acabar…
Espero que este blog sirva para manter a lembrança daquele que foi um bom Amigo e o melhor Pai do Mundo – Fernando Paula.

No Meu Livro de Curso....

Depois de chegar ao 3º ano de engenharia eletrotécnica no IST disse ao meu Pai que ia desistir do curso, porque não estava a gostar e até já tinha arranjado emprego.
Ele nem pestanejou, disse que a vida era minha e, se era realmente isso que eu queria, que me apoiava incondicionalmente (como sempre fez!!..).
Cerca de 10 anos mais tarde, já casada e com filhos, resolvi acabar o curso.
Como sempre digo, o curso não foi tirado só por mim, foi tirado pelos 4. Nunca conseguiria sem a impagável ajuda do meu marido e dos meus filhos! Todos eles sofreram com a minha loucura de, trabalhando por turnos, fazer questão de fazer todas as cadeiras de cada semestre à primeira e faltar ao mínimo de aulas possível, o que se traduzia por, muitas vezes, quase não os ver durante a semana, de praticamente não ajudar nas tarefas domésticas, de não estar tão disponível quanto devia, para as necessidades dos meus filhos.
No final consegui convencer os meus colegas a fazer um Livro de Curso, em troca eles pediram-me que, apesar de não achar muita piada, fosse com eles à cerimónia da bênção das fitas.
Eles cumpriram a parte deles e eu tive que cumprir a minha, claro! E lá fui eu, até Fátima, com a capa e a pasta do meu Pai, decorada com as fitas do meu curso!
Foi aí que vi quanto o magoei no dia em que desisti do curso (que ele não deixou transparecer nunca) e a alegria e orgulho que ele estava a sentir quando me viu com a capa e a pasta dele. Quando o abracei e lhe pedi desculpa, ele deu-me um beijo e disse mais ou menos... "Sempre tive muito orgulho em ti e hoje é a prova de que não estava errado. Não é o "canudo" que é importante mas sim o conhecimento que nos é transmitido. Tu, quando viste que precisavas de aprender mais, foste à procura desse conhecimento! Fico feliz não só por teres conseguido lutar pelo que querias, como por ver que te consegui ensinar alguma coisa!!!"

Para o meu Livro de Curso ele escreveu:


No Porto nasceu,
Em Miranda
Se baptizou.
Mas foi em Lisboa
(no Técnico)
Que O conheceu.
Aqui se casou.
Deram-me
Dois Netos.
Sabe o que quer
E para onde vai.
Come pouco
E trabalha muito.
É honesta.
Melhor não há.
Adoro-A
É minha Filha.
Um beijo do
Papá
                                    Maio de 1995

Livro de Curso do meu irmão

No Livro de Curso do meu irmão, em 1991, o meu Pai escreveu:

 
Pedes-me
Que te faça uns versos
Para o teu livro de Curso.
Lembrei-me do meu
Já lá vão … trinta e oito anos.
(tinha eu a tua idade)
Lembrei-me
Dos colegas,
Dos professores,
Da minha mocidade.
Vieram-me as lágrimas aos olhos
(não que seja piegas)
Mas
Confesso,
Tinha saudades,
De quando tinha
A tua idade.
Que poderei dizer
Sem que
O muito que gosto de ti
Me não influencie?
Vou tentar ser isento.
Vou desejar-te
Tudo de Bom.
Que te sopre na VIDA
Um bom vento
Que tenhas
O que de bom tive
O que de bom vivi
E mais,
Tudo o que de bom mereces.
São estas
As minhas preces.

Fanico da Cilinha
O Nandinho da Família
Foi em Trás-os-Montes
Na cidade de Miranda
Que este Jovem nasceu.
Condeixa o elegeu,
Mas foi em Lisboa,
Da Portela a Cascais,
Que a “noite” o conheceu.
É alto e bem parecido,
Tio Tonto prós Sobrinhos,
Melhor AMIGO não há
(pelo menos para mim)
Um beijo do
Papá

PORTUGAL


Tu
Que tens passado
A História de Feitos Gloriosos.
Que firmemente
Levaste de vencida
Com Fé
Com Querer
Os obstáculos
Que se Te depararam.
Tu
Que deste Novos Mundos
Ao Mundo.
Quedas-Te
Apático
Descrente
Indiferente às calúnias
E golpes traiçoeiros
De oportunistas e politiqueiros.
Esvais-Te em sangue
(que já tiveste)
Apodreces conformado
Enquanto
Muitos dos Teus Filhos
Procuram plagas longínquas
Para se Libertarem
Desta vil canalha
Que os vitupera.
Desperta PORTUGAL
Acorda para a realidade
Sacode o jugo que Te domina
Com demagogias
Liberta-Te
Da opressão que Te impõem
A troco de promessas
Efémeras e irreais.
Acorda meu PORTUGAL                                                                                    
                                                                                           Maio de 1976

BAIRROS DE LATA


Venham comigo.
Dispam-se de preconceitos
E pensem.
Nas belas moradias
Que possuem,
Nos perfumes
Nos “Chás” que frequentam,
À custa
Destes BAIRROS DE LATA,
Bairros de lixo
De Crianças rotas, sem pão.
De Crianças descalças,
De prostituição.
E, se depois de os verem,
Alguma dignidade vos restar,
Vomitem
O ouro mal digerido
Que vos prostitui
E ajudem a construir
Um Portugal melhor.

                              Fernando Paula
                              Maio de 1975

QUANDO ACORDEI…


Em sonhos ergui cidades.
Em sonhos fiz o que quis.
Derrubei muros
Abri prisões.
Em sonhos…
Vivi feliz.
Julguei-me num mundo novo.
Gritei de alegria.
Senti-me em Liberdade.
Amei.
Amei as coisas simples.
Na minha Cidade
Havia:
Alegria
Liberdade
E havia
Paz
E havia
Amor.
Havia tudo o que lhe dei.
O pior…
Foi quando acordei.

                                   Fernando Paula
                                   Fevereiro de 1974

LIBERDADE


Sou como pedra rolada
Ou como nuvem que passa
(em céu vermelho de Inverno)
Ai, como eu gostava de poder,
Brincar como as crianças,
De saltar e rir,
Com os meus sonhos…
De ter na mão a LIBERDADE
Como se fora bola de sabão,
E multiplicá-la
E reparti-la
E a cada um, gostaria de dar,
Uma Lua
E Estrelas
E um Sol.
E dar Flores.
Tudo o que ninguém tem.
Tudo no que uma criança acredita…
Mas eu estou só.
E não tenho a Lua, as Estrelas e ainda as Flores.
Só tenho um Sol…
A loucura que me alumia.
Não me basta, mas…ajuda-me.

SER CRIANÇA


Quisera ser criança toda a vida,
Para saltar muros
E poder chorar.
Para continuar a rir
E poder cantar.
Para saltar,
De braços abertos para o céu
E colher flores.
Para acreditar nos homens
E sentir o vento
E o cheiro a terra.
Para poder apanhar a chuva
E sentir a primavera.
E, em cada dia que passa,
Sentir que vale a pena viver.
Mas eu já não sou criança,
E já não salto muros.
E já não rio.
E também já não canto.
E já não creio nos homens.
E já não sinto o vento
E o cheiro da terra.
Já nem sei amar…
A minha primavera,
Já morreu.
Agora,…já nem sei chorar.

NÃO QUERO


Não.
Acredita que não sei.
Não minto, quando,
Nos momentos de lucidez (ou de desespero)
Digo: Não sei.
Não sei o que quero
Não sei do que sou capaz.
Sei…(sim isso sei)
Sei que contigo,
Não quero arriscar.
Sei…(sim isso sei)
Sei que contigo,
Não quero falhar.
- Dá-me vontade de rir.
Se não soubesse quem sou,
Se não julgasse saber o que de mim sei,
Já teria perdido o respeito, a dignidade, a fé.
A Fé?
A Fé em quê?
A Fé em quem?
Talvez sejas tu
O que procuro sem encontrar,
A gota de água que me saciaria.
Talvez,
Talvez, até um dia…
Reparo, digo…Talvez.
(a minha vida é feita de incertezas)
Talvez eu seja o produto duma sociedade decadente
Talvez me falte a coragem,
Ou talvez, seja suficientemente forte,
Para aguentar, como castigo,
Tudo o que não tenho,
E teria contigo.
Não sei o que quero,
Nem do que sou capaz.
Acredita.
Não estou a brincar
Quando digo,
Que contigo
Não quero falhar.

DILEMA


Como corcel ao vento
Sacudindo as crinas
Voa meu pensamento.
Sonho com um passado
Que não vivi
E sinto-me enganado
Por tudo o que poderia ter tido
E não tive.
Sinto Que se não como sou
Mais nada quisera ser.
Sou eu.
Basta-me.
Não.
Nada me modifica.
Por não ter tido o que desejei
Revolto-me contra mim próprio
Não pelo que sou
Mas pelo que perdi
Sendo o que sou.
Gostaria de viver
Como todos vivem
Mas o preço é muito grande.
Não.
Não abdico.
Prefiro morrer
A transigir.